Gaeco detalha como operava organização criminosa suspeita de grilagem de terras no Litoral do Piauí - Jornal da Ilha Grande Piauí

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Gaeco detalha como operava organização criminosa suspeita de grilagem de terras no Litoral do Piauí



O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) explicou com exclusividade para a TV Clube como operava a organização suspeita de criar um esquema para grilagem de terras no litoral do Piauí nas praias de Macapá, Carnaubinha e Barra Grande. O grupo envolvia empresários, advogados, policiais militares, servidores públicos e um cartório.
De acordo com o promotor Rômulo Cordão, coordenador do Gaeco, a organização tomava terras de posseiros e em seguida tentava legalizar os terrenos, para então revendê-los. Os investigados são suspeitos de utilizar de violência e ameaçar até mesmo um prefeito da região.
O promotor detalhou ainda a investigação para apurar a suspeita de vazamento de informações sigilosas, o que teria favorecido um dos alvos da operação.
Fluxograma mostra como cada pessoa agia dentro de organização criminosa responsável por grilagem de terras  — Foto: Divulgação/GaecoFluxograma mostra como cada pessoa agia dentro de organização criminosa responsável por grilagem de terras  — Foto: Divulgação/Gaeco
Fluxograma mostra como cada pessoa agia dentro de organização criminosa responsável por grilagem de terras — Foto: Divulgação/Gaeco

Terras da União

De acordo com o promotor, o alvo do grupo eram terras próximas ao mar localizadas no litoral do Piauí, nas praias de Macapá, Carnaubinha e Barra Grande. “É um local com grande potencial turístico e exploração de energia eólica”, disse o promotor Rômulo Cordão em entrevista à TV Clube.
Por se tratarem de terrenos bem próximos do oceanos, as terras pertencem à União. Atualmente, estas terras são ocupadas por posseiros, pessoas que moram no lugar há décadas. A organização investigada tinha a intenção de tomar esses terrenos e regularizar a posse para eles, e posteriormente revendê-las.

Milícia

Para tanto, a organização cooptou dois policiais militares para ameaçar e expulsar os moradores das terras. “A organização criminosa se utilizava dos policiais que iam até o local e expulsava se usando de violência, de armas. Inclusive destruindo casas com máquinas e ateando fogo. Isso tudo com uma constante ameaça a todas as pessoas”, explicou o promotor Rômulo.
Segundo a investigação, até mesmo até mesmo o prefeito do município, Kim do Caranguejo (PSB), e servidores do setor de tributos da prefeitura de Luís Correia teriam sido ameaçados para emitir licenças.
“O que a gente evidenciou foi a existência até de uma milícia atuando no local”, disse o promotor. Os policiais militares envolvidos foram alvo da operação “Sal da Terra”, deflagrada simultaneamente à operação Terra Nulius. Eles foram identificados como Valdeci Galeno e Dwan Rodrigues.

Influência na Polícia

O Gaeco apontou um empresário da região identificado como Francisco Araújo, conhecido como “Araujinho”, como líder da organização. Segundo o promotor, o empresário financiava o pagamento de propinas, e tinha grande interesse nas terras a serem griladas.
Segundo Gaeco, dois advogados agiam como intermediários do empresário: Luís Nunes Neto e Apoena Almeida. Os dois teriam atuado nos terrenos, junto com os policiais, para expulsar os moradores, e buscavam proteger o esquema de possíveis investigações da Polícia Civil.
“Luís Neto tinha trânsito muito grande dentro da Polícia Civil. Tanto que ficou constatado que o delegado anterior, que presidia a investigação acerca dessas milícias e dessa grilagem, foi transferido abruptamente para outra cidade enquanto um delegado escolhido pela organização criminosa seria o responsável por tocar o inquérito policial e fazer a vontade desses malfeitores, de levar a investigação para o arquivamento”, explicou o promotor Rômulo.
Um mandado de prisão contra Luís Neto chegou a ser expedido pela Justiça, mas não foi cumprido por que o advogado não foi encontrado em sua casa. Uma nova investigação foi aberta para apurar a possibilidade de vazamento de informações, já que Luís teria sido avisado sobre a chegada dos policiais.
Já o advogado Apoena Almeida, de acordo com o promotor Rômulo Cordão, teria participado para criar uma história para barrar a investigação. “Na prática, houve uma conversa entre Apoena e Francisco Araújo no sentido de deixar a responsabilidade dos atos nas costas do capitão Galeno”, disse.
Grilagem
A investigação apurou que a organização tinha influência no cartório da cidade de Luís Correia, e atuava para tentar regularizar as terras depois da expulsão dos posseiros. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos na casa de gestores do cartório durante a operação Terra Nulius.
“Eles querem dar um manto de legalidade nessas terras, através de documentos que foram expedidos pelo próprio cartório para poder revender essas terras”, disse o promotor Rômulo Cordão.